twitter
facebook
linkedin
rss
16 / mar 2018

A VEZ DE DELFIM NETTO

O ex-ministro Delfim Netto foi um dos alvos de busca e apreensão na 49ª fase da Operação Lava Jato (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

Os acordos de delação feitos pelos presidentes do Conselho da Odebrecht e da Construtora Andrade Gutierrez trouxeram à tona, nas investigações promovidas pela Lava Jato, a figura do ex-ministro Delfim Netto.

Após a tomada de depoimentos pela Polícia Federal, a inclusão do prestigiado defensor da ditadura militar torna-se relevante, se considerada a influência que sempre exerceu junto às figuras exponenciais da política brasileira.

Delfim Netto foi ministro da Agricultura no governo Figueiredo e do Planejamento no governo Geisel, tendo sido eleito deputado federal em 1986 pelo PDS, atuando na vida parlamentar por duas décadas.

Embora sustentando que não fora conivente com as atrocidades cometidas no regime de exceção, apoiou o AI5, que, a seu ver, ensejaria “a possibilidade de realizar certas mudanças constitucionais, absolutamente necessárias para que este País possa realizar o seu desenvolvimento com maior rapidez”.

Com esta adesão, concorreu para o fechamento do Congresso Nacional, cassações, expurgos, suspensão de “habeas corpus” para crimes políticos, ainda que vinte anos depois subscrevesse a Constituição Federal, por entender que ela seria destinada à consolidação “lenta, gradual e segura” da democracia.

Passou à história como o idealizador do “milagre econômico”, iniciado em 1967 e enterrado em 1973, que levou o Brasil a crescer 10% ao ano, com grande concentração de renda. Quando ocorreu o debacle das contas públicas surgiu o motejo “o povo está a fim da cabeça do Delfim”.

Já em 1976, foi acusado de haver recebido propina de US$ 6 milhões como embaixador na França, quando do financiamento da obra de Tucuruí por um banco daquele país.

Ao longo de sua carreira política, negou qualquer relação com as instituições responsáveis pela “segurança interna”, embora houvesse se aproximado dos financiadores da tortura, a exemplo do dinamarquês Henning Boilesen, que presidiu a Ultragaz.

Entre as suas realizações mais conhecidas, sobressaíram a elevação de tarifas públicas, o incentivo fiscal ao investimento estrangeiro, o congelamento de salários, a rodovia Transamazônica. O resultado desta arrojada iniciativa foi a escalada do endividamento externo brasileiro, que atingiu níveis surpreendentes.

Nas gestões de Lula e de Dilma Rousseff a sua palavra tinha grande influência, o que também ocorreu com o atual governo de Michel Temer, de quem tornou-se amigo e conselheiro.

Após ser deputado por cinco mandatos, ressurgiu com força nos governos petistas, mantendo estreita relação com o ministro Antônio Palocci, que o consultava com frequência.

A sua maleabilidade sempre lhe assegurou posição de destaque, tendo escapado ao escândalo Coroa-Brastel, que contou com seu apoio.

Agora, prestes a completar 90 anos, reaparece na Operação “Buona Fortuna” (49ª fase da Lava Jato), tornando-se alvo de busca e apreensão, em sua casa e em seu escritório, pela atuação exercida juntamente com seu sobrinho, Luiz Appolonio Neto.

Segundo a PF e o Ministério Público, a dupla recebeu R$15 milhões de propina quando da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Este valor correspondia a 10% do percentual pago pelas construtoras que, também, beneficiaram os partidos MDB e PT.

A “gratificação” foi concedida independentemente de qualquer serviço prestado pelo ex-ministro às empreiteiras, contempladas por agente do governo federal para que saíssem vencedoras no leilão da usina Belo Monte.

Embora não ocupando hoje qualquer cargo público, o professor emérito da Faculdade de Economia de São Paulo enfrenta provas convincentes e comprometedoras que o envolvem nesse indecoroso episódio. O seu indiciamento concorrerá para denegrir o prestígio que sempre desfrutou junto ao Executivo, a que serviu fielmente graças aos conhecimentos de economia que o notabilizaram.