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14 / set 2018

UMA REFLEXÃO OPORTUNA

O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas (Foto: Geraldo Magela/ Agência Senado)

O episódio que abalou o País na quinta-feira passada (6), gerando apreensões de toda a sorte, recebeu do comandante do Exército uma avaliação tão equilibrada, como enérgica. Superou os pronunciamentos pressurosos dos candidatos, ora em campanha, mais interessados em granjear prestígio popular do que em contribuir para a pacificação dos ânimos.

Em sua cadeira de rodas, atingido por doença progressiva, o general Eduardo Villas Bôas foi preciso na reflexão de que “esse atentado, infelizmente, veio a confirmar essa intolerância generalizada e a nossa falta de capacidade de colocar acima dessas questões políticas, ideológicas e pessoais o interesse do País” (“O Estado de S. Paulo”, 10/9/18).

Com efeito, se estivesse em vigor a liberalidade de armas de fogo proposta por Bolsonaro, este, em vez de facada, poderia ter sido atingido por um tiro à queima-roupa, com letalidade invencível.

O militar não deplorou, simplesmente, a grave ocorrência, exigindo a imediata identificação de seus responsáveis, preferindo apontar não só a causa do fato delituoso, como a sua repercussão no governo a ser escolhido em outubro vindouro.

Na sua percepção aguda, o ataque acabará “minando tanto a governabilidade, quanto a legitimidade do novo governo”. Em seguida, acrescentou: “O pior cenário é termos alguém sub judice, afrontando tanto a Constituição quanto a Lei da Ficha Limpa, tirando a legitimidade, dificultando a estabilidade e a governabilidade do futuro governo e dividindo ainda mais a sociedade brasileira”.

Fundado nessas considerações, espera que “a sociedade tenha levado um susto, do que pode acontecer diante dos caminhos que estávamos trilhando”.

Sejam quais forem os efeitos da perversa agressão, a vitimação de Bolsonaro não se prestará a atenuar a responsabilidade de sua pregação em favor da violência, que tanto entusiasma os seus seguidores.

O general Villas Bôas, referindo-se ao candidato, deparou com duas consequências que poderão advir da ação criminosa: “Não sendo ele eleito, ele pode dizer que prejudicaram a campanha dele. E, ele sendo eleito, provavelmente será dito que ele foi beneficiado pelo atentado, porque gerou comoção”.

Certo é que, em qualquer dessas hipóteses, houve um fato estranho que alterou “o ritmo normal das coisas e isso é preocupante”.

Na entrevista concedida, o general Villas Bôas refletiu tanto o despreparo da população, como a frustração dos eleitores com os atuais candidatos. Lideranças partidárias e sindicais passaram a disseminar o ódio e/ou o emprego de armas, caso seus objetivos não sejam alcançados.

Vivemos uma campanha atípica em que o eleitor, ao invés de escolher seu candidato, revela extrema agressividade contra aqueles que, a seu ver, não deverão ser eleitos. Este quadro concorrerá para elevar a efervescência, fazendo com que “o acirramento dessas divergências saiam do nível político, atingindo o nível comportamental das pessoas”.

Mesmo esperando que isso não ocorra, tudo leva a crer que, caso subsista a inquietude reinante, o desassossego atual poderá chegar a um plano imprevisível.