twitter
facebook
linkedin
rss
04 / ago 2017

UM GOLPE DE MESTRE

A primeira-ministra alemã Ângela Merkel (Foto: veja.com/AP)

Desde 2001, a Alemanha permitia que casais do mesmo sexo pudessem registrar suas parcerias civis, concedendo-lhes alguns benefícios, mas nem todos que são assegurados aos heterossexuais.

A recente aprovação da lei que permitirá aos homossexuais adotar crianças, igualando-se aos alemães em direitos que já prevaleciam em outras nações, como França e Espanha, ganhou maior destaque em razão das eleições previstas para setembro vindouro.

A resistência a essa conquista liberal por parte da União Democrática Cristã (CDU), não empanou os festejos comemorativos.

Angela Merkel, sendo de formação conservadora e filha de pastor protestante, permitiu que os legisladores votassem como melhor entendessem, embora contrariando a tendência de seu partido de origem. Foi um golpe de mestre com que se ajustou à tradição progressista da União Europeia, da qual é líder inconteste há doze anos, que revigorou seu poderio político.

Os partidos de maior peso eleitoral, que poderão tornar-se aliados da CDU, são a favor do casamento gay. Como a nova lei identifica-se a esta inclinação, seria conveniente que fosse submetida ao Bundesrat (Câmara Alta) antes da contenda, de modo a tornar Angela Merkel a maior beneficiária do seu desfecho.

Desde 2015, Merkel vinha sustentando: “para mim, pessoalmente, casamento somente é um homem e uma mulher vivendo juntos”.

A coerência nunca foi o apanágio de sua personalidade. Mesmo reconhecendo a sua condição de herdeira política de Helmut Kolh, chegou a desvincular-se dele, virando as costas ao seu próprio partido. Mas não deixou de render-lhe comovente homenagem no seu recente falecimento, ocorrido três meses antes da eleição que disputará.

Compreensível, pois, o seu pronunciamento assim que aprovado o novo diploma legal no parlamento por 293 a 226 votos: “Espero que a votação de hoje não só promova o respeito entre diferentes opiniões, mas também traga mais coesão e paz social”.

Os partidos que defendiam o “Ehe für alle” (“casamento para todos”) foram desarmados por Merkel, não podendo mais fazer deste lema um atrativo para o seu candidato, desde que o CDU, a contragosto, encampou a proposta que conta com a simpatia de três quartos dos alemães.

Às demais legendas resta somente referendar o nome de Angela Merkel. Com isto, a aprovação da lei importou numa vitória da maioria, que garantirá à candidata mais quatro anos de governo.