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06 / out 2011

UM ARQUIVAMENTO VERGONHOSO

O político, no verdadeiro sentido da palavra, é aquele que resiste às tentações do cotidiano, sem transigir com os princípios que devam orientar a sua conduta.

O deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) teve processo arquivado

O político não deve impressionar-se com os elogios aparentes nem com a lisonja transitória, própria do chaleirismo, que é o vizinho mais próximo da corrupção.

Quando do episódio que absolveu a deputada federal Jaqueline Roriz, foi possível avaliar do que a Câmara dos Deputados é capaz, no futuro, sempre que estejam em jogo interesses pessoais e conveniências partidárias.

Quando ainda não estávamos refeitos daquele vergonhoso acontecimento, eis que novo fato ocorre no Congresso, envolvendo conhecido político, infundindo-nos a certeza de que teremos, ainda, novas indulgências, por mais graves que sejam os motivos que concorram para a instauração dos processos éticos.

Recentemente, a Câmara decidiu não mais processar o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) por quebra de decoro, inobstante as provas das negociações em que se envolveu. Com o propósito de livrá-lo da acusação pendente, o PR mobilizou a sua tropa de choque, contando com a solidariedade imoral da base que apóia o governo, em todas as situações.

A manifestação do deputado Amauri Teixeira (PT-BA) de que “não queremos jogar às feras um colega nosso”; as congratulações do deputado Wladimir Costa (PMDB-PA), com “todos os colegas que são pelo arquivamento”, deram a medida exata do que ocorreu, merecendo os aplausos dos mineiros Lincoln Portela e Mauro Lopes (PR-MG), empenhados em salvar, a todo o custo, o infrator.

A justificativa de Costa Neto foi de que a representação contra a sua atuação não podia gerar qualquer punição, pois “traz atos de mandatos anteriores”. Vale lembrar que Costa Neto é réu no processo do mensalão, havendo renunciado em 2005, na iminência de responder a um processo de cassação na Câmara.

A votação que determinou o arquivamento do expediente, no Conselho de Ética (16 votos a 2), revela a força de que dispõe o governo naquele órgão. Doravante, já sabemos qual será o destino das denúncias veiculadas pela imprensa e o pouco caso que se dispensa à indignação da opinião pública naquela Casa.

Convém relembrar que constava do processo um vídeo comprovando a atuação de Valdemar na liberação de recursos do Ministério dos Transportes, para que o deputado Davi Alves Silva Júnior ingressasse no PR. Ainda foi exibido um trecho da entrevista concedida a uma emissora de rádio paulista, exigindo a diretoria de um banco público para que pudesse ajudar os seus correligionários na obtenção de verbas.

Assim, inobstante o esforço do relator, deputado Fernando Francischini (PSDB-PR), em votar pela abertura do processo, os demais integrantes da Comissão negaram-lhe apoio, pretextando que não se podia abrir uma investigação sobre “o nada”.

A anunciada tentativa da presidente Dilma Rousseff em “varrer” a política dos maus elementos e o discurso por ela proferido na ONU, no mesmo sentido, ficaram apenas no campo das meras intenções, sem nenhum resultado prático que pudesse levar o povo a acreditar naquelas manifestações.

Esse jogo de intriga, inveja e incapacidade, foi qualificado por Rui Barbosa, naRepública Velha, como de politicagem – e não de política. As atitudes obscenas ocorridas no Congresso trazem-nos a certeza de que ainda estamos longe de uma política com “P” maiúsculo, que emane da sociedade e possa provocar as transformações de que carecemos.

Ignorar esses fatos seria como esconder a cabeça na areia. É preciso ser muito idiota para desconhecer o que estamos vivendo, indiferentes àqueles que estão de costas para o povo, preocupados, apenas, em tornar realidade as suas ambições pessoais.

 

Foto: (Saulo Cruz/Agência Câmara/Divulgação)

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