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09 / nov 2018

TÃO PARECIDOS E PRECIPITADOS

Conhecido o resultado do segundo turno, o presidente eleito recebeu de Donald Trump mensagem de congratulações, enfatizando: “Nós concordamos que o Brasil e os Estados Unidos vão trabalhar juntos em comércio, questões militares e todo o resto”.

De sua parte, Jair Bolsonaro considerou aquela manifestação como um “contato bastante amigável”, tomando a expressão “boa sorte” como sendo um desejo do mandatário norte-americano de que o novo governo seja bem-sucedido.

Desde que Bolsonaro deflagrou a sua campanha eleitoral, tornaram-se frequentes as comparações surgidas entre ele e Donald Trump. Seja pelas posições sustentadas em relação às minorias, seja pelo trato com a mídia, em face da disposição de ambos em não valorizar as opiniões emitidas pelos veículos de comunicação que destoem de seu entendimento.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Sanders, questionada sobre essas comparações, foi taxativa ao repeli-las, pois, no seu modo de ver, “só existe um Donald Trump”.

Na avaliação do diplomata Melvyn Levitsky, que foi embaixador no Brasil entre 1994 e 1998, e hoje é professor de política internacional na Universidade de Michingan, a aparente afinidade ideológica entre Trump e Bolsonaro, por si só, não mudará as relações entre Brasil e Estados Unidos. Assim, ambos os dirigentes estarão mais preocupados com os problemas internos de seus países, ainda que as questões diplomáticas, envolvendo comércio e imigração, possam, no futuro, gerar atritos entre os dois governos.

No entanto, Bolsonaro tem um ponto a seu favor: “Trump admira os líderes que desafiam o sistema político, como ele fez. Por isso, talvez ele tenha uma admiração pelo Bolsonaro”.

Segundo Levitsky, tudo leva a crer que Bolsonaro possa agir mediante ordens executivas, a exemplo do que Trump tem tentado fazer em seu país. Mas, se isso ocorrer, poderá ser desafiado pelo Congresso brasileiro, ainda que consiga agitar as massas e sua base possa ganhar apoio com isso.

Não menos certo que os dois “são bem erráticos e podem mudar de ideia do dia para a noite”, conclusão que extraiu da campanha de Bolsonaro e do jeito com que Trump conduz a sua presidência.

O apoio de Bolsonaro à transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, adotando o exemplo de Trump, ainda que concorresse para prestigiá-lo junto ao presidente, foi mal recebido pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira ao admitir a possibilidade de risco de interrupção de “uma trajetória de crescimento da parceria entre o Brasil e os países árabes”.

Enquanto o premiê de Israel, Benjamin Netahyahu felicitou o presidente eleito pela iniciativa, qualificando-a como “um passo histórico, justo e emocionante”, as autoridades palestinas viram no anúncio da transferência “uma medida provocadora, que é ilegal diante do direito internacional e que não faz nada mais que desestabilizar a região”.

Houve, assim, precipitação na declaração feita que, certamente, agradou a Donald Trump, embora contribuindo para tornar ainda mais grave a crise permanente do Oriente Médio.

Bolsonaro renovou a sua admiração por Israel, contrariando a posição histórica do Brasil de equilíbrio entre Israel e Palestina.

O embaixador brasileiro Sérgio Amaral, comentando a declaração de Trump de que “é difícil negociar com o Brasil”, não encontrou motivo para essa avaliação, acentuando que “nossas relações comerciais são boas e temos tido déficit com os EUA em quase toda a última década”.

Na concepção do diplomata, se formos examinar a história das relações Brasil-Estados Unidos, depararemos com um processo de zigue-zague de pêndulo: “em alguns momentos, tivemos declarações como o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil, e em outros tivemos uma posição de desconfiança”.

Ainda é cedo para novos prognósticos quanto à convivência dos dois governos. Durante a campanha, Bolsonaro foi alvo de duras reportagens das publicações mais importantes do mundo. Mas, tão logo eleito, recebeu cumprimentos de diversos governos, a começar do americano.

Ao escolher os Estados Unidos como o primeiro país a ser visitado, segundo o seu futuro ministro Onyx Lorenzoni, Bolsonaro cumpriu a promessa de que imprimirá uma forte guinada na política externa priorizando as alianças estratégicas com grandes potências, eliminando no Itamaraty as tendências ideológicas que prevaleceram nos governos petistas.

Resta aguardar o desenrolar dos fatos.