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16 / nov 2011

SILVIO BERLUSCONI: RENÚNCIA OU QUEDA?

Há dúvida se o episódio que importou na saída de Sílvio Berlusconi do poder possa ser entendido como renúncia ou queda, em face das circunstâncias em que foi apeado da condição de premiê.

Em artigo publicado no “Guardian”, o jornalista John Hooper foi categórico ao afirmar: “Nenhum italiano, desde Mussolini, deixou uma impressão tão duradoura sobre seu país. E nenhum outro, desde então, fez tanto para prejudicar as perspectivas da Itália e sua posição mundial”.

Esta avaliação realista permite considerar a saída de Berlusconi como um autêntico terremoto, embora o sismo tenha como característica a imprevisibilidade, o que não ocorreu na Itália. Pois, já era esperado.

A sua presença à frente do governo italiano representou o que houve de mais nocivo naquele país. Deixou um rastro de hipocrisia e imoralidade, que talvez não haja ocorrido sequer na época dos césares.

O seu grande mal foi imaginar que, sendo um homem rico, que manipulava inúmeros veículos de comunicação, tudo quanto se dissesse a seu respeito se perderia na bruma do tempo, não havendo quem fosse capaz de fazer-lhe oposição.

Nem mesmo o Judiciário mostrou-se capaz de conter os seus passos, através de recursos sucessivos, na tentativa de esgotar todas as instâncias e a paciência dos magistrados.

O seu partido, Forza Itália, foi obra de um plano publicitário e apregoava uma democracia artificiosa que lhe assegurou vitória esmagadora, em 1994. Tal como Jânio Quadros, no Brasil, o primeiro governo Berlusconi não durou sequer um ano e a sua força era tal que detinha cinco canais de televisão, contra dois de seus opositores, que lhe deram a sustentação populista desmedida.

Some-se a isto o fato de haver se tornado dono do Milan, que tornou-se campeão à custa de uma série de escaramuças, ganhando no “tapetão” de seus contendores.

O segundo e o terceiro períodos em que governou a Itália foram marcados por fatos escabrosos, delitos financeiros, orgias sexuais envolvendo menores, com a ajuda de cafetões e aliados políticos.

Em 2006, o seu conceito moral estava definitivamente comprometido. Os escândalos sucederam, atingindo o ápice em 2009, o que resultou em sua separação conjugal, desde que a esposa não suportava mais os vexames que o marido lhe impunha, agravados com a compra de uma prostituta menor de idade.

Não bastassem esses desatinos, a cada dia mais frequentes, Berlusconi concorreu, ainda, para que a Itália fosse visceralmente atingida pela crise da zona do euro. Paira a expectativa de que, como o país que tem uma dívida de 1,9 trilhão de euros (US$2,6 bilhões), incida em moratória, com a elevação da taxa de desemprego, atingindo a outros países do mundo.

No passado, tornou-se amigo fraterno de Kadafi, estimulando a implantação de indústrias na Líbia, numa reciprocidade de favores vergonhosa, ainda que, mais tarde, rompesse com o tirano, aderindo às forças da OTAN na sua derrubada.

Fica, pois, a certeza de que Berlusconi não renunciou à condição de primeiro-ministro; mas, sim, deteriorou-se, devido à corrupção que medrou em seu governo fétido, embora procurasse, a todo custo, resistir a esta derrocada, prometendo ao povo um “novo milagre econômico”, que importou num desmoronamento ético, fruto de sua incontida ambição.

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