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16 / mar 2020

PROVOCAÇÃO OFICIAL

Em recente ultraje, o presidente Jair Bolsonaro imputou à nossa imprensa a repercussão negativa de sua iniciativa de contratar um humorista para responder perguntas sobre o resultado fraco do PIB, que registrou o crescimento anual de somente 1,1%.

O artista Márvio Lúcio, da TV Record, conhecido como Carioca, do extinto programa “Pânico”, distribuiu bananas aos repórteres após descer de um veículo presidencial, acompanhado do secretário especial de Comunicação, Fabio Wajngarten.

Na oportunidade, o mandatário afirmou: “Vocês são uma espécie em extinção. Eu acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama”.

No dia seguinte, dando sequência aos seus insultos, indagou dos profissionais da comunicação quanto ao motivo que os levava a comparecer diariamente à residência oficial, acrescentando: “Quando vocês aprenderem a fazer jornalismo, eu converso com vocês”.   

Diante do insólito tratamento recebido, os jornalistas, mesmo instados por Carioca a fazer perguntas sobre o PIB, se recusaram a formular qualquer indagação, deixando o local onde se encontravam.

O episódio ocorreu logo após o lançamento da nova edição da Cartilha de Proteção dos Direitos Humanos de Jornalistas, onde se lê: “O valor do jornalismo e da comunicação, mesmo em situações em que a informação divulgada possa ser crítica ou inconveniente aos interesses do governo”.

No final de 2019, Bolsonaro, questionado por um repórter sobre a prática de corrupção que envolvia seu filho Flávio, quando deputado da Assembleia Legislativa fluminense, respondeu: “Você tem uma cara de homossexual terrível”.  

Em solenidade realizada no Palácio do Planalto, Bolsonaro criticou a jornalista Thais Oyama, autora do livro “Tormenta”, que relata os despropósitos presidenciais. Segundo Bolsonaro, “esse é o livro dessa japonesa, que eu nem sei o que faz no Brasil”, acrescentando: “A nossa imprensa tem medo da verdade, deturpa o tempo todo. Quando não conseguem deturpar, mentem descaradamente”.  Ao contrário do que afirmou, Thaís Oyama é brasileira, embora descendente de nipônicos.

Levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas revelou que de 75% dos ataques feitos à imprensa em 2019, o presidente foi responsável por 60% dessas ofensas.

O jornalista Merval Pereira que, além de membro do Conselho Editorial do jornal “O Globo”, integra a Academia Brasileira de Letras, em artigo divulgado naquele matutino (“Sem Compostura”, 6/3/2020), renovou a repreensão emitida pelo ministro Celso de Mello, decano do STF: “Brincar com o crescimento pífio do PIB brasileiro é brincar com a taxa de desemprego, é menosprezar as consequências no cotidiano do cidadão de baixa renda ou sem renda. Não tem noção do que seja decoro, na vida privada e na pública, nem respeita a liturgia do cargo”.

Já a colunista Eliane Cantanhêde, em artigo publicado em “O Estado de S. Paulo” (“Que surpresa”, 6/3/2020), formulou esta oportuna colocação: “Como investir num país onde o presidente, para fugir de falar do PIB, traz em carro oficial um comediante para jogar bananas em repórteres?”.

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