twitter
facebook
linkedin
rss
08 / jun 2018

A PROPOSTA DO CANDIDATO

O deputado federal Jair Bolsonaro (Foto: Dida Sampaio/ Estadão)

Como cidadão, que se julga responsável pelo destino de seu país, nunca me empolguei com o surgimento de candidatos que pontificam nas pesquisas eleitorais.

Quando Jânio Quadros apareceu na política, anunciando que faria uma faxina no governo de seu antecessor JK, ao contrário de muitos parentes e amigos, que viam no mato-grossense a salvação da Pátria, recusei-me a lhe dar meu voto, antevendo o que iria acontecer antes de completar um ano de governo.

Não me enganei, pois, nunca vi no vereador, prefeito e governador de São Paulo, as condições elementares para a sua ascensão ao Palácio do Planalto.

Não foi outra a minha previsão ao que estaria para acontecer com o “caçador de marajás”, que deslumbrou o Brasil com a sua mocidade cativante, prometendo céu e terra ao eleitorado, pelo combate que, sem tréguas, deflagraria à corrupção.

A permanência de Collor em somente dois anos no governo, foi suficiente para demonstrar a sua incompetência para gerir uma nação ávida de seriedade e de homens aptos ao exercício da atividade pública.

Nos últimos meses, os eleitores renovaram seu entusiasmo pelo novo fenômeno personalizado num militar da reserva, que há muito já demonstrou do que é capaz. O alto índice de aprovação já obtido nas pesquisas do Datafolha seria suficiente para credenciá-lo a ocupar a suprema magistratura da Nação.

O fato de se tratar de um ex-capitão do Exército, não me convence de que seja a solução para um povo que clama pelo restabelecimento do princípio da autoridade. Como deputado federal, a sua trajetória é reles, não constando que tenha sido autor de um projeto de lei sequer que rime com a sua pregação.

Contando com a assessoria do economista Paulo Guedes, Jair Bolsonaro teve, pelo menos, a sinceridade de afirmar que não entende nada de economia, confirmando o seu despreparo nessa área.

Há 19 anos passados, numa entrevista ao programa “Câmara Aberta”, questionado se fecharia o Congresso caso assumisse a Presidência da República, foi taxativo: “Não há a menor dúvida, daria o golpe no mesmo dia! Não funciona! E tenho a certeza de que pelo menos 90% da população ia fazer festa, ia bater palma, porque não funciona. O Congresso hoje em dia não serve pra nada, só vota o que o presidente quer”.

No mesmo pronunciamento, não se fez de rogado quanto à sua descrença na democracia, aduzindo: “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, no dia em que partir para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando pelo FHC, não deixar ele pra fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente” (‘Folha de S. Paulo” e “O Estado de S. Paulo” de 3/6/18).

Ante a gravidade da proposta, a Câmara dos Deputados enviou representação ao STF pedindo a punição de Bolsonaro. A Procuradoria Geral da República opinou pelo arquivamento, por entender que ele, como deputado, gozava de imunidade parlamentar em seus votos, palavras e opiniões, não havendo cometido qualquer ilícito penal.

Agora, como candidato, desdisse o que afirmara, recorrendo a um eufemismo: “Nunca falei a palavra intervenção. Se um dia o militar chegar ao poder, será através do voto”.

Este é o “pole position” da corrida eleitoral. Se, no passado, contando com a benemerência do Ministério Público conseguiu safar-se de uma punição no STF, hoje, certamente, o mesmo não ocorrerá.

Pelo menos enquanto for presidente da Suprema Corte a ministra Cármen Lúcia, que já mandou um recado às figuras carismáticas, que, voltadas para seus próprios interesses, passaram a apregoar o regime de exceção como sendo o caminho mais curto para corrigir os desequilíbrios sociais do Brasil.