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25 / jun 2019

O RISCO DE UM PAÍS DIVIDIDO

É fato inconteste que para a eleição de Jair Bolsonaro contribuíram o sentimento anti-PT, que grassava na sociedade, a inépcia do segundo mandato de Dilma, a preocupação com a segurança e a violência, o desemprego que ainda subsiste, deixando os brasileiros na expectativa de medidas sempre adiadas.

A sua simpatia pelo regime militar, a crítica aos direitos humanos e o conservadorismo em relação aos costumes, somados à força política dos evangélicos, lhe asseguraram a vitória desde o primeiro turno.

Uma vez eleito, Bolsonaro passou a enfrentar diversas facções no seu próprio governo, que fragmentaram os rumos governamentais. A avaliação do ex-chanceler Celso Lafer a este respeito, não enseja contestações (“O Estado de S. Paulo”, 19/5/19). Além dessa ruptura que corrói a sua gestão, o presidente depara, a cada dia, com inimigos e conspirações, no Brasil e no Mundo, que se propõe a combater como se fosse de autêntico cruzado.

A sua conduta conflita com personalidades como Barack Obama e Angela Merkel. O primeiro, negro, criado em Chicago; a segunda, uma mulher egressa da Alemanha Oriental. Ambos comprovaram sua capacidade de administrar situações complexas, como aconteceu com a recessão de 2008 e os desafios da integração europeia.

Ulysses Guimarães, na solenidade da edição da Constituição atual, proclamou seu ódio e nojo permanente às ditaduras, tomado de sua obstinada vontade em refundar a República.

Essa resistência cívica já não subsiste no Brasil atual. A nossa simpatia pela Hungria, Polônia, Itália e outros países comprometidos com a direita, não é a mesma que inspirou a Carta de 1988 e os princípios que nela ficaram prevalecendo.

Se falhamos em relação à esquerda petista, é inaceitável que o mesmo volte a ocorrer com a contribuição de Olavo de Carvalho e Ernesto Araújo, que, como os filhos do presidente, estão empenhados em construir um Brasil diferente, identificado com os dogmas que professam.

O populismo que medra em países como a Hungria de Orbán, caracterizado pela “tradição judaico-cristã”, pode lhe ser útil e estimular o medo coletivo. Mas, esse exemplo não nos será proveitoso, a não ser que venhamos a renunciar às vantagens da democracia, mesmo com os riscos e deficiências que a caracterizam.

Por tudo isso, a “nova política”, alardeada pelo bolsonarismo, não deve trazer em seu bojo um facciosismo no trato da causa pública, contribuindo para que a sociedade seja dividida.

Impõe-se a preservação de um “governo de leis” – e não de homens –, como advertiu Milton Campos ao assumir o governo de seu estado. Esse cuidado torna-se imperativo sempre que a Constituição e as instituições forem ameaçadas por aqueles que não conseguem aspirar aos ares salutares da democracia.

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