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10 / ago 2011

O QUE VIRÁ DEPOIS DE CHÁVEZ?

A América do Sul conheceu, nas últimas semanas, dois episódios que bem demonstram o despreparo político de alguns governantes para conviver com a democracia.

No Peru, o presidente Alan García recusou-se a transferir a faixa que ostentava ao seu sucessor Ollanta Humala, eleito no segundo turno, após derrotar Keiko Fujimori pela escassa diferença de 3% dos votos.

Em sua campanha, Humala contou com marqueteiros do PT, tudo fazendo para demonstrar a sua proximidade ideológica com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em razão do prestígio que esse adquiriu no Peru.

Durante a campanha eleitoral, embora Humala se empenhasse em afirmar que não estava mais vinculado a Hugo Chávez, reservou os Ministérios da Educação e Relações Exteriores para aliados que nutrem simpatia pelo presidente venezuelano.

Conforme assinalou o colunista Clóvis Rossi, em artigo publicado na “Folha” (29/07), Humala, se for sincero, terá que reconhecer que a herança recebida de Alan García é bem diferente da que Lula recebera de Fernando Henrique.

Basta lembrar que o Peru cresceu formidáveis 7,5% no primeiro semestre deste ano, o que significa que o novo presidente começará surfando uma onda de prosperidade, ao contrário do que aconteceu com Lula em 2003.

Como se vê, a figura da “herança maldita”, criada por José Dirceu e imputada ao governo de Fernando Henrique, não pode ser comparada a que foi deixada por Alan García.

Quanto à Venezuela, corre o risco de suportar a permanência de Chávez até 2031, pois este será candidato nas eleições de 2012, embora já se encontre no poder há 12 anos.

O atual presidente bolivariano não se interessou em criar um sucessor. Com isto, concorreu para a criação de vários grupos que buscam rendê-lo, imbuídos da mesma autoridade que o caracteriza.

A Venezuela fornece a Cuba US$ 5 bilhões ao ano em ajuda, incluindo 60% do petróleo que a ilha consome.

O país continua sendo um ponto estratégico para a lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e armas, contando com a cumplicidade de militares que têm visível interesse em assumir o poder que Chávez atualmente detém.

Há, ainda, um grupo de importantes empresários que acumulou imensa fortuna na era Chávez e que está de olho no seu afastamento, acompanhando com visível interesse a evolução do câncer de que padece.

Daí poder afirmar-se que a sua substituição no poder será marcada por divergências, mesmo existindo um certo favoritismo de Hugo Chávez pelo general-chefe Henry Rangel Silva.

Este, em recente declaração, mostrou-se tão afinado com o temperamento de Chávez, ao ponto de afirmar que os militares não vão tolerar um governo da oposição, ainda que esta saia vencedora nas eleições presidenciais de 2012.

Diante desse quadro, mesmo que Chávez considere-se insubstituível, a sua permanência no comando da Venezuela certamente não será tão tranquila como sempre imaginou.