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26 / out 2018

O QUE NOS AGUARDA

Ante o prestígio granjeado pelo candidato Jair Bolsonaro, compete-lhe demonstrar nestes últimos dias o que será capaz de realizar a partir de 1º de janeiro vindouro, quando deverá assumir a presidência da República.

Inobstante a exiguidade do tempo, esta providência se impõe de parte de um militar que defendeu a ditadura, inclusive a tortura, emitindo manifestações explícitas sobre o racismo, homofobia, anticomunismo, com a crítica velada e, às vezes, escancarada, aos órgãos de comunicação que não compartilham de sua intolerância contra as minorias.

Foi à custa desses pronunciamentos cativantes que logrou captar a frustração de eleitores atingidos pelos desastrosos governos petistas. Não é de se estranhar, pois, o vídeo de seu filho, Eduardo Bolsonaro, eleito com expressiva votação, recomendando o fechamento do Supremo Tribunal Federal. E para minimizar essa aberrante iniciativa, a tarefa poderia ser cumprida somente por um soldado e um cabo.

Não é de hoje que Bolsonaro questiona a legitimidade do STF, da Procuradoria-Geral da República, do Ministério Público e, paradoxalmente, do próprio Congresso Nacional, onde tem assento.

O motivo prontamente encontrado para safar-se da enérgica repulsa dos que viram nesta proposta idiota o risco para o regime democrático é de que ela não passa de uma lorota, difundida por um parlamentar que é, também, escrivão da Polícia Federal.

A alegação de que a declaração do travesso proponente não passara de uma bazófia inconsequente, não convence as pessoas de bem. Daí merecer ser alvo de medidas judiciais severas, como recomendou o ministro Alexandre de Moraes assim que teve conhecimento do ultraje praticado.

Como acentuou o decano da Suprema Corte, ministro Celso de Mello, o fato de Eduardo Bolsonaro ter obtido votação expressiva (quase dois milhões de votos) não legitima “investidas contra a ordem político-jurídica”.

Não há como condescender com essa afronta a mais alta Corte do País – a despeito dos equívocos cometidos em suas decisões. O deputado suplente Wadih Damous (PT), ex-presidente da OAB-RJ, teria comungado da mesma providência alvitrada pelo “garoto” de 35 anos, o que não atenua o achincalhe cometido.

Vale salientar que, no domingo passado (21), ou seja, no mesmo dia em que veio a tona a proposta de seu “pupilo” Eduardo, Jair Bolsonaro, arrogando-se à condição de líder da “maioria”, ao referir-se à oposição, adiantou que “essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão pra fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”.

Quanto ao ex-presidente Lula, foi incisivo ao afirmar: “Você vai apodrecer na cadeia. E brevemente você terá Lindbergh Farias para jogar dominó no xadrez. Aguarde, o Haddad vai chegar aí também. Mas não será para visitá-lo, não, será para ficar alguns anos ao seu lado. Já que vocês se amam tanto, vocês vão apodrecer na cadeia. Porque lugar de bandido que rouba o povo é atrás das grades”.

Neste mesmo diapasão, acrescentou: “Vocês, petralhada, verão uma polícia civil e militar com retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês. Bandidos do MST, bandidos do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo”.

O outro filho, Flávio Bolsonaro, futuro senador da República, em 2007 votou contra a CPI das milícias, apresentando projeto para legalizar esses grupos de extermínio.

Esses precedentes levam-nos a concluir que o futuro mandatário está acostumado a conviver com a execração, gerando a suspeita de que não se identifica sequer com a Constituição Federal, que deverá, em juramento solene, defender e respeitar no ato de sua posse.

Caso não modifique o seu discurso agressivo, seremos obrigados a recorrer à solidez das instituições para conter essa retórica belicista, inobstante a consagração obtida no primeiro turno.

A sugestão de Eduardo e as colocações de Jair Bolsonaro trazem consigo resquícios odiosos que colocam em risco a vitalidade dos Poderes e a grandeza da democracia, a que não estão afeiçoados, contaminando a sua própria família.