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02 / abr 2019

O QUE FALTOU NA VIAGEM

A viagem de Jair Bolsonaro a Washington foi marcada por fatos significativos que despertaram a atenção, em face das circunstâncias em que ocorreram.

É razoável que num encontro de presidentes de nações amigas haja troca de gentilezas e, em alguns casos, até mesmo de presentes. Ocorre que no encontro mantido na Casa Branca o relacionamento foi além do esperado, incluindo manifestações surpreendentes, cujas consequências destoam da normalidade.

Bolsonaro chegou a emitir seu apoio à reeleição de Trump, o que não repercutiu bem junto ao Partido Democrata que, após obter maioria na Câmara dos Deputados, está revigorado para reassumir o poder em 2020.

Não menos temerária foi a escolha da Fox News para uma entrevista exclusiva, em se tratando da única emissora de televisão que apoia o governo republicano. Bolsonaro gabou-se de ser o primeiro político brasileiro de extrema direita que visitou os Estados Unidos.

No rol das temeridades cometidas, elogiou a obstinação de Trump em erguer um muro na fronteira com o México, chegando a admitir que imigrantes brasileiros não ingressam naquele país com boas intenções, ficando subentendido que assim procedem na condição de aventureiros.

Não houve explicação plausível para a presença de Eduardo Bolsonaro em um encontro de seu pai com Trump, no Salão Oval, com o alijamento do chanceler Ernesto Araújo, cuja admiração pelo atual presidente estadunidense beira ao fanatismo.

As trocas de vantagens havidas entre os dois mandatários, incluindo a renúncia aos benefícios na OMC e a liberação de lançamentos de foguetes na Base de Alcântara, também não repercutiram favoravelmente, mesmo entre alguns apoiadores de Bolsonaro.

A possível contribuição do Brasil à invasão da Venezuela não foi descartada, mesmo não contando com o apoio dos militares e, especialmente, do vice-presidente Hamilton Mourão. Indagado a esse respeito pelos jornalistas, na entrevista dada ao lado de Trump, Bolsonaro reconheceu que o tema foi objeto de diálogo, não podendo revelar os seus termos por se tratar de questão secreta.

Por igual, despertou interesse da mídia a ida de Bolsonaro à Central de Espionagem dos Estados Unidos (CIA), que não constava do programa. A inesperada visita concorreu para que o líder do PSOL, deputado Ivan Valente, protocolasse pedido de explicações dirigido à presidência da Câmara, indagando quanto à finalidade dessa surpreendente presença naquele órgão.

Tais fatos concorreram para que o jornalista Bernardo Mello Franco registrasse em sua coluna (“O Globo”, 20/3) que, no programa cumprido por Bolsonaro ao nosso parceiro comercial, só faltou que o presidente brasileiro pedisse um autógrafo a Trump.