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26 / out 2011

O MENOSPREZO DE KHADAFI A LULA

Segundo os relatos de Eduardo Scolese e Leonencio Nossa, jornalistas do “Estadão” e da “Folha” (“Viagens com o Presidente”, editora Record), o presidente Lula, em sua viagem ao Oriente Médio, em 2003, ficou com os nervos à flor da pele devido ao comportamento do ditador Muammar Khadafi.

Assim que deixou o aeroporto, ao percorrer as ruas de Trípoli, a comitiva presidencial viu-se perseguida por uma multidão assustadora, que batia com as mãos nos vidros dos carros, seguindo-os a pé, de bicicleta e até mesmo a cavalo. Os militares do país, com seus uniformes rasgados e calçados furados, sequer conseguiam afastá-los do comboio, que se dirigia ao Palácio Bab-Aziziya com ministros, assessores, além da imprensa brasileira.

Lula ficou espantado com a calorosa recepção preparada pelo tirano líbio. Porém, no dia seguinte, a atitude paranóica de Kadhafi, atribuída às diversas ameaças sofridas por parte de seus opositores, provocou um chilique no ex-presidente. A segurança pessoal do ditador solicitou a Lula que não agendasse nada, ficando, assim, à espera do chamado de Kadhafi, que assim agia como forma de despistar os que cobiçavam a sua cabeça.

Mais tarde, um emissário do governo líbio disse ao ministro Celso Amorim que o presidente seria recebido. Lula se aprontou rapidamente. Mas, minutos antes de sair do quarto, foi informado de que Kadhafi só poderia recebê-lo mais tarde. Frustrado, voltou para os seus aposentos, mais uma vez à espera do chamado do ditador, o que ocorreu meia hora depois, mas que novamente foi desfeito.

Irritado com a situação, Lula desabafou: “Fala pra esse cara que eu sou o presidente do Brasil. Se ele não me receber agora, eu vou embora para o aeroporto. Não vou fazer papel de bobo”, disse ainda dentro do elevador. Em poucos minutos, o impasse foi resolvido e Lula conseguiu finalmente ser recebido pelo déspota.

Ao retornar ao Brasil, o ex-presidente referia-se à viagem com frequência, ressaltando o fato de ter sido o primeiro governante brasileiro a visitar a Líbia. No entanto, D. Pedro I, em 1876, visitara a região, em caráter cultural, para conhecer suas ruínas. Lula, porém, gabava-se, enfatizando que a sua viagem fora de “negócios”.

A morte de Kadhafi, que não é mais que “uma curva no fim da estrada” (segundo conceituou Machado de Assis), apesar das circunstâncias obscuras, deverá ter o efeito benéfico de propiciar ao povo líbio o fim da guerra no país, que, dessa forma, poderá concentrar-se na tarefa de realizar uma transição rumo à democracia.

Durante o seu governo, Kadhafi recebeu a visita de líderes de outros países, como o presidente Sarkozy, os primeiros-ministros Berlusconi e Tony Blair, todos interessados nas oportunidades de negócios que a Líbia proporcionava, notadamente na exploração do petróleo.

As graves violações perpetradas pela OTAN, quando da visita de Obama ao Brasil, importaram em abuso dos poderes concedidos pela ONU. No texto aprovado pelo seu Conselho de Segurança, autorizava apenas o uso de força somente para a proteção de civis, mas não a eliminação do tirano.

Talvez o exemplo da Tunísia, que escolheu, no último domingo, os seus novos parlamentares constituintes, possa inspirar a Líbia a encontrar a sua aguardada renovação política.

 

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