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28 / maio 2012

O MACHISMO AO LONGO DA HISTÓRIA

A piloto Betânia Porto Pinto, nos seus quase 20 anos de carreira, foi vítima de preconceito

Repercutiu na imprensa nacional a notícia de que um passageiro recusou-se a embarcar em um avião comercial, que tinha como comandante uma mulher.

O fato ganhou maior destaque por ter ocorrido em Minas Gerais. Por certo, em razão do juízo ultrapassado de que o nosso estado sempre foi considerado conservador – o que hoje não corresponde à realidade.

Há muitos anos, as mulheres foram admitidas como comandantes de aeronaves, não se tendo notícia, até hoje, de qualquer resistência de passageiros em voar pelo fato de que o avião não estaria sob a responsabilidade de um homem – e sim de uma mulher. Isto jamais significaria menor segurança para quem estivesse a bordo.

Essa resistência à presença da mulher em atividade tradicionalmente exercida pelos homens não é nova e, a cada dia, torna-se mais absurda.

Em 1910, Myrthes Campos foi a primeira mulher a pleitear inscrição no antigo instituto da Ordem dos Advogados (que deu origem à atual OAB), sustentando que, como a Constituição de 1891 não negava expressamente o direito ao voto feminino, assistia-lhe, assim, o direito de ingressar naquela entidade de classe e participar de suas votações.

O direito ao sufrágio feminino só ocorreu em 1932 por decreto de Getúlio Vargas, confirmado na Constituição de 1934.

Em Minas Gerais, a primeira advogada a inscrever-se na seccional mineira foi Elvira Komel, bacharelada no Rio de Janeiro e que teve expressiva atuação em favor das mulheres em nosso estado, sofrendo restrições de toda sorte, vindo a falecer quando contava com somente vinte e oito anos de idade.

As primeiras reivindicações levadas a efeito pelas mulheres, em favor de sua participação na vida política, ocorreram no nordeste. A maranhense Joana Rocha dos Santos foi a primeira prefeita daquele estado, o que se deu em São João dos Patos, ao longo de dezesseis anos. Em 1954, retornou a Prefeitura, desta vez, pelo voto popular.

Ainda na seara do Direito, vale lembrar o nome de Carfânia, que foi a primeira advogada romana. Em razão da sua obstinação na defesa das causas que patrocinava, era alvo de represália pelos cidadãos romanos, que não viam nela condições de rivalizar-se com eles no desempenho da missão que cumpria com empenho e emoção.

Na história da medicina, a figura emblemática foi Agnodice, que viveu na Grécia e pretendia romper com a limitação de que o exercício dessa profissão era privativo dos homens.

Daí haver viajado a Roma, onde aprendeu a fazer partos, obtendo conhecimentos básicos de ginecologia e obstetrícia.

Quando retornou à Grécia, travestiu-se de homem para poder praticar a medicina, sendo denunciada pelos médicos de cometer atos libidinosos com as suas pacientes. No tribunal em que foi julgada, despiu-se completamente diante dos jurados, tendo o Juiz reconhecido a injustiça de que era alvo por parte dos seus detratores.

Em razão dessa atitude corajosa, ensejou a promulgação de lei determinando que, a partir de então, as mulheres podiam exercer a medicina na Grécia.

Outros fatos semelhantes mereciam ser incluídos nesta compilação. Certamente concorreriam para demonstrar o absurdo ocorrido no aeroporto de Confins, que culminou com a retirada do passageiro do avião em que se encontrava.

A medida, ainda que violenta e desnecessária, encontrou justificativa no motivo invocado pelo viajante para insurgir-se contra a presença da comandante Betânia na cabine de comando do avião da TRIP.

Sem dúvida que o seu procedimento importou numa atitude preconceituosa, incompatível com os dias atuais.