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29 / out 2019

O IMPOSTOR DA CASA BRANCA

A aprovação pelo Congresso dos Estados Unidos de uma ajuda militar de US$ 391 milhões a Ucrânia, guarda estreita ligação com a coação que Donald Trump exerce sobre o presidente Volodymyr Zelenski, compelindo-o a investigar Hunter Biden, que mantém negócios naquele país.

O sindicado é filho de Joe Biden, que foi vice-presidente de Barack Obama e reúne possibilidade de ser o candidato democrata nas eleições presidenciais de 2020.

Como bem observou o “The Economist”, quanto à irrelevância desse fato, basta rever o que houve no passado envolvendo presidentes que responderam a processo de impeachment.

A investigação movida a Nixon teve sua origem no arrombamento da sede do Comitê Nacional do Partido Democrata (16/7/72). Já no caso de Bill Clinton, o processo foi deflagrado devido a um caso extraconjugal com uma estagiária da Casa Branca.

Que não dizer agora de uma ajuda concedida a um país supostamente aliado, mediante a condição de que seu governo investigue a família de um político rival, faltando pouco mais de um ano para a reeleição em que Trump postula a sua permanência no poder.

 As reiteradas críticas que Trump faz aos jornalistas, qualificando-os de “inimigos do povo”, é comum nos regimes autoritários, a exemplo do que ainda hoje ocorre na China. Nos Estados Unidos, esse procedimento assume maiores proporções por se tratar da nação que faz da liberdade de imprensa o cerne de sua democracia.

Desde que alçado, surpreendentemente, à presidência, o mandatário norte-americano acusa a imprensa de divulgar “fake news”, com o visível propósito de tirar a legitimidade das reportagens que lhes são adversas, reputando-as como “mentira política”. Essa é a avaliação feita pelo publisher do “The New York Times”, Arthur Gregg Sulzberger.

Desde a sua posse, Trump desqualificou a mídia da mesma forma que colocou sob suspeita os juízes, desencadeando o ódio político. Daí haver procurado garantir-se exigindo dos chefes da Inteligência, como o FBI, CIA e NASA, uma lealdade incondicional que pudesse servir de escudo contra os seus vínculos com a Rússia durante a campanha eleitoral.

A retórica ameaçadora do presidente foi direcionada, especialmente, para órgãos de reconhecida penetração, como a CNN, o “The New York Times”, o “Los Angeles Times”, sempre valendo-se do mesmo refrão de que a mídia era “inimiga do povo americano”.

A legislação atual, que proíbe os presidentes de nomear membros da família para gabinetes ou cargos em agências, foi por ele pisoteada a partir da nomeação de sua filha Ivanka e de seu genro Jared Kushner, para postos de aconselhamento de alto nível.

Foi esse precedente que estimulou Jair Bolsonaro a indicar o filho Eduardo para embaixador em Washington: se não há vedação legal, desafia o espírito da lei que impede atos semelhantes, importando na mistificação de assuntos públicos com privados.

Trump se arroga à condição de haver obtido a maior vitória no colégio eleitoral desde Ronald Reagan. Sucede que George H. W. Bush, Clinton e Obama, foram eleitos com margem superior a que obteve o fanfarrão que pretende se reeleger.

Ao longo de sua administração, excluiu seletivamente jornalistas dos eventos da imprensa, optando por órgãos de menor alcance, embora afeiçoados às suas bravatas.

Por tudo isto, mesmo que o processo de impeachment deflagrado pela líder democrata, Nancy Pelosi, não passe no Senado; ainda que os seus acólitos insistam no mote de que “quanto mais os democratas se empenharem na sua queda, melhores são as suas chances de reeleição”, é certo que Trump soma a cada dia mais descrédito.

Ainda que o impeachment seja mais um fato político que constitucional, não se pode afastar, de vez, o risco de Donald Trump ser afetado em relação ao escândalo envolvendo o governo da Ucrânia, que ultrapassou limites razoáveis.

É bem mais grave do que o arrombamento de um escritório partidário, como sucedeu no Watergate. E, em termos de segurança nacional, suplanta os afagos de Bill Clinton a Monica Lewinsky.

Resta aguardar a evolução dos fatos.

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