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04 / nov 2019

IDENTIDADE QUE COMPROMETE A DIPLOMACIA BRASILEIRA

(Foto: Kevin Lamarque/Reuters)

No curso de sua viagem ao Oriente Médio, o presidente Jair Bolsonaro valeu-se dos encontros que deveria manter com as autoridades locais para defender-se da situação difícil que atravessa, tanto no âmbito político como econômico, antes de completar um ano de seu mandato.

O seus pronunciamentos primaram por ataques aos supostos opositores, que reputa como sendo os grandes entraves na consecução dos resultados prometidos ao povo brasileiro na fase eleitoral. A esta altura, a reforma da Previdência deixou de ser o mote de suas falas internas, eivadas de propósitos eleitoreiros que condicionam a sua reeleição em 2022.

Através do Twitter, Bolsonaro comparou-se a um leão acossado por hienas em meio à vitória das esquerdas na América Latina. A divulgação do vídeo se deu quando ingressava numa limousine em Riad, capital da Arábia Saudita, para um jantar com o príncipe herdeiro.

No rol das “hienas” que o irritam, apontou o STF, a ONU, além da OAB e CNBB, a revista “Veja”, os jornais “O Globo”, “Folha de SP”, “O Estado de S. Paulo” e a poderosa Rede Globo, sua principal desafeta.

Há uma evidente simbiose entre o comportamento de Trump e o seu fiel escudeiro na América do Sul, na obstinada campanha de desqualificação dos veículos cujas linhas conflitam com as disparatadas declarações que emitem.

Trump não contava com experiência política até tornar-se candidato republicano em 2016; Bolsonaro, embora deputado federal desde 1990, integrante do “baixo clero”, nunca presidiu comissões temáticas na Câmara, disputando a presidência pelo então partido nanico PSL, que se tornou a segunda maior bancada daquela Casa. Hoje, ambos vivem às turras, já tendo o presidente admitido a possibilidade de não filiar-se mais a nenhuma legenda. Será o bloco do “eu sozinho”…

A aversão à “velha política” iguala Trump a Bolsonaro, inclusive na promessa de acabar com o “toma lá dá cá”, desprestigiando os líderes partidários.

O republicano repete diariamente que a mídia é “inimiga do povo” e só conta com a “Fox News” para divulgar suas propostas. Bolsonaro, por sua vez, refere-se ao “The Guardian” e ao “The Economist” como órgãos de esquerda, prestigiando a TV Record e outras emissoras que lhe são simpáticas na divulgação de seus projetos.

Trump opina nos jardins da Casa Branca sobre tudo o que lhe vem à cabeça. Bolsonaro não deixa o Palácio da Alvorada sem trazer um novo tema que lhe possa assegurar notoriedade, valendo-se das redes sociais, acolitado pelo filho Carlos ao divulgar nomes de novos ministros e dirigentes estatais.

Se Trump escolheu a filha Ivanka e o seu marido Jared Kushner como conselheiros internacionais, Bolsonaro, mirando-se nesse exemplo, empresta mão forte aos seus filhos tanto em relação à política externa como nos temas domésticos. Ainda que esses não ostentem qualquer credencial para o desempenho das missões que lhe são cometidas.

Ambos são entusiastas e defensores do porte de arma, contando com o apoio da indústria armamentista. Enquanto Trump reputa o uso de armamentos por cidadãos comuns como “um presente de Deus”, Bolsonaro vê, no uso das armas, apenas o exercício da excludente da legítima defesa.

Com evidente desprezo à política defensora do aquecimento global, Trump retirou os EUA do acordo de Paris. Bolsonaro considera que as ONGs ligadas ao meio ambiente constituem ameaça à soberania nacional.

Nos primeiros dias de seu mandato, Bolsonaro anunciou a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Mas, com a reação dos países árabes e a excursão que cumpriu nessas nações, já não cogita da questionada mudança, contentando-se com a instalação de um mero escritório.

Não bastasse essa sintonia comprometedora, em desacordo com a nossa política externa, o presidente brasileiro, além de criticar a ONU, se opõe à imigração que Trump, também, combate, na mesma linha de seu mentor norte-americano.

Trump e Bolsonaro são infensos ao multilateralismo. O primeiro se empenhou, tão logo eleito, na construção de um muro na fronteira com o México, criando inúmeras restrições ao acesso de refugiados aos EUA.

Vale assinalar que a substituição da arrojada candidatura de Eduardo Bolsonaro pela indicação do diplomata Nestor Foster para a embaixada do Brasil em Washington, não reduziu a disposição de Bolsonaro em continuar a ser um fã confesso de Donald Trump.            

O futuro embaixador conta com o apoio de Olavo de Carvalho e Ernesto Araújo, devendo ser aprovado no Senado sem maiores resistências. A sua ida para o posto ambicionado por Eduardo, livrou Bolsonaro dos riscos de uma rejeição vergonhosa, inobstante os artifícios já postos em prática para que o “garoto” fosse ungido como sucessor de Joaquim Nabuco.

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