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24 / ago 2011

EM CIMA DO MURO

Paira razoável incerteza quanto às relações que o Brasil mantém com a Líbia, diante de um quadro que ainda não ficou definido.

A visita de Barack Obama ao nosso país coincidiu com a resolução da ONU contrária ao governo de Gaddafi.

Naquela oportunidade, a embaixadora brasileira, Maria Luiza Ribeiro Viotti, posicionou-se de forma dúbia quanto ao caminho que iríamos tomar em relação ao conflito instaurado, cujas proporções já se afiguravam preocupantes.

Sucede que, com o passar do tempo, embora parecesse que a situação iria tornar-se mais amena, tal não ocorreu, sem que se pudesse prever até quando Gaddafi resistiria à ação dos rebeldes.

Na semana passada, três deputados brasileiros voaram para Trípoli, a convite do ditador, interessado em mostrar ao mundo o alcance das tropas da  OTAN que apoiavam a ação dos insurgentes líbios.

Há alguns anos, empresas brasileiras operam na Líbia, a exemplo das construtoras Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Odebrecht. Esta última mantém contrato com o governo local da ordem de 5,3 bilhões de euros, enquanto que a Petrobras tornou-se sócia na exploração de petróleo no Mar Mediterrâneo.

Até agora o Itamaraty não se manifestou a respeito da crise eclodida naquele país. Tudo faz crer que a visita feita por Lula a Trípoli concorreu para que o nosso chanceler, Antônio Patriota, se conserve silente, evitando qualquer implicação do Brasil na conflagração em curso.

Nos últimos dias, o porta-voz do Itamaraty, Tovar Nunes, afirmou que o nosso país continuará reconhecendo o embaixador líbio Salem Zubeidy, aliado do tirano, como legítimo representante da Líbia na capital federal.

A justificativa dada pela chancelaria foi a de que, como não houve ainda a formação de um novo governo na Líbia que houvesse “desacreditado’ Zubeidy, este permaneceria desfrutando de todas as garantias diplomáticas inerentes à função que exerce.

Não causará surpresa alguma, se a insurreição for vitoriosa, que as empresas brasileiras venham a sofrer as consequências do comportamento hesitante que assumimos, desde que irrompeu o movimento sedicioso.

Não se pode confundir a prudência, que deve existir nas relações internacionais, com a indecisão que põe em risco a segurança dos negócios que mantemos na Líbia, especialmente em relação à Petrobras, que ali se encontra desde 2005, na condição de vencedora de um processo licitatório.

Enquanto Alemanha, Itália e França têm procurado justificar a necessidade de um entendimento entre as partes beligerantes, visando evitar maior derramamento de sangue, o Brasil mantém-se indiferente, sem emitir qualquer pronunciamento.

Daí a necessidade de que nos posicionemos, desde já, quanto à discórdia interna da Líbia, ao invés de nos mantermos numa neutralidade comprometedora, muito própria daqueles que esperam o fim da luta para depois aplaudir o vencedor.