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19 / jan 2018

A DESCOMPENSAÇÃO DE UM PRESIDENTE

Ante a inusitada manifestação do presidente Donald Trump em reconhecer Jerusalém como capital de Israel, alguns países islâmicos que, até então, viviam em litígio, consequente de rivalidades religiosas, se uniram em protesto contra o mandatário estadunidense.

As manifestações tornaram-se mais acentuadas em cidades da Cisjordânia, após os líderes do Hamas convocarem a população para um novo levante. A reação contra Trump se alastrou quando centenas de pessoas desfilaram pelas ruas de Teerã, insufladas pelos clérigos que estimulavam os palestinos a uma revolta contra os Estados Unidos.

O mesmo ocorreu na Jordânia, em Istambul e no Cairo, onde os manifestantes se reuniram na mesquita Al-Azhar, entoando o apelo “com sangue e alma nos sacrificaremos por você, Al-Qds (nome árabe de Jerusalém)”.

Assim, Irã e Arábia Saudita, que sempre foram inimigos ferrenhos na luta pela hegemonia do Oriente Médio, externaram a mesma opinião sobre a insólita decisão norte-americana, classificando-a como um “passo irresponsável”.

Embora o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, houvesse procurado minimizar a importância da decisão de Trump, afirmando que a transferência da embaixada para Jerusalém não ocorrerá nos próximos dois anos, isso não impediu que o movimento assumisse a importância que teve.

O governo de Trump concitou o Brasil a proceder da mesma forma, mudando a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, assumindo a mesma posição em relação a Argentina e México. Segundo consta, houve resistência de parte da chancelaria brasileira a essa convocação, embora o Itamaraty não tenha adotado um tom agressivo contra Trump, a exemplo de outros países que se opuseram à sua proposta.

O governo brasileiro reafirmou a posição de que as negociações devam prosseguir dentro das fronteiras internacionalmente reconhecidas e com livre acesso aos lugares santos das três religiões monoteístas, tendo em conta o que já ficara estabelecido em junho de 1967.

Enquanto Israel reivindica Jerusalém inteira como sua capital, incluindo a parte oriental onde vivem mais de 200 mil colonos, os palestinos se opõem a essa pretensão, que importa em admitir que nenhuma parte de Jerusalém integre a sua capital.

Trump desconsiderou as resoluções do Conselho de Segurança da ONU e a lei internacional. Com isto, admitiu que o seu decantado plano de paz ficará a cargo do genro, Jared Kushner, conferindo-lhe um poder excepcional, como se integrasse a diplomacia dos Estados Unidos.

O Brasil não pode olvidar que a criação do estado de Israel só se concretizou graças a atuação de Osvaldo Aranha. Mas tal não significa que estejamos permanentemente comprometidos com aquele país, por maior que seja a cobertura dada a ele pelos Estados Unidos.

A esta altura, torna-se compreensível a manifestação de renomados psiquiatras da Universidade de Yale, Harvard e Columbia, que, após analisarem os discursos de Trump, chegaram à conclusão de que ele “tem um estado de instabilidade corriqueiro, um padrão de descompensação perigoso”.

O estudo refere-se, ainda, à 25ª emenda da Constituição americana, segundo a qual um presidente pode ser retirado do cargo caso seja “incapaz de desempenhar os deveres de seu ofício”.