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18 / maio 2011

CAUTELA E CAUDILHISMO

O anunciado encontro entre o presidente Hugo Chávez com a presidente Dilma Rousseff, previsto para semana passada, não se realizou, devido à versão de que o mandatário venezuelano sofrera uma lesão no joelho que o impediu de deslocar-se, ainda, que por via aérea até o Brasil.

Na data prevista da viagem, foi divulgado um dossiê do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, em Londres, revelando a existência de encontros e financiamentos por parte da Venezuela às FARC.

Assim, o repentino cancelamento da viagem de Chávez gerou especulações, devido à suposta relação existente entre a frustração do encontro, com a notícia divulgada de que Chávez apoiara a guerrilha, inclusive para efeito de treinamento das Forças de Liberação Bolivarianas, que atuam na fronteira com a Colômbia.

O embaixador do Brasil em Caracas, José Antônio Marcondes de Carvalho, considerou que “tão importantes quanto o comércio de bens e serviços é a cooperação técnica, um dos eixos estratégicos das relações bilaterais. CEF, IPEA, Embrapa e ABDI são instituições brasileiras hoje presentes na Venezuela, onde oferecem ajuda para capacitação de quadros de agências governamentais nos mais variados setores: habitação, planejamento territorial, agricultura, política industrial”. Segundo consta, essas empresas já têm uma carteira de investimentos de US$ 20 bilhões naquele país.

Chávez, que deveria ser recebido pela presidente Dilma no Palácio da Alvorada – e não no Itamaraty –, fez-se representar, em Brasília, pelo chanceler Nicolás Maduro.

As trocas bilaterais em 2010 alcançaram a US$ 4,68 bilhões, com a Venezuela respondendo por 15% do superávit global brasileiro, o tornou o Brasil o terceiro sócio comercial da Venezuela e seu primeiro parceiro sulamericano.

Por mais importante que sejam esses números, visando justificar as estreitas relações comerciais entre o nosso país e a República Bolivariana, impressionou a revelação feita pelo representante de Chávez nas conversações mantidas com o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota.

Falando à imprensa, Maduro assinalou que a questão da habitação é o grande foco na nova fase das relações mantidas com o governo atual. Assim, o projeto “Minha Casa, Minha Vida” será implementado na Venezuela, com o financiamento pela Caixa Econômica Federal destinado a construir dois milhões de casas nos próximos sete anos.

Sabendo-se que a falta de moradia é a deficiência preocupante naquele país, o Brasil irá colaborar com a Venezuela formando uma equipe nesse projeto de cooperação a ser realizado.

Ocorre que a experiência levada a efeito no Brasil tem sofrido sérias críticas, por maior que fosse o interesse de Lula em fazer dela a bandeira de seu governo.

Quanto à negociação ora cogitada, não merece crítica desde que aprovada pelos órgãos competentes da instituição financiadora, que é a CEF. Não se admite, porém, que o nosso relacionamento com a Venezuela importe em comprometimentos políticos, como ocorreu no governo Lula, inspirado em seu assessor Marco Aurélio Garcia, que ainda hoje atua no Palácio da Alvorada.

Toda cautela, neste particular, é válida, mormente considerando a notícia vinda de Londres, da colaboração de Chávez com as FARC, bem como a solidariedade existente entre ele e os presidentes Raúl Castro e Mahmoud Ahmadinejad, no que foi acompanhado por Lula, no curso de seus dois mandatos.

Esta é a cautela que Dilma deverá observar sempre que se negociar com aquele caudilho, por mais vantajosas que sejam as operações comerciais efetuadas.