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27 / dez 2019

A REPARAÇÃO DE UMA INFÂMIA

Sem concluir um acordo sobre o mercado de emissão do carbono, a COP-25, realizada em Madri, se extinguiu de modo pouco alentador. O Brasil contribuiu para este malogro obstruindo a carta final, mediante idas e vindas.

Segundo os participantes do simpósio, o Itamaraty ficou numa posição isolada por representar o único país a defender que metas de redução de emissões não deveriam ser ajustadas, descontando-se do cálculo dos créditos de carbono vendido a outros países.

Esse isolamento contrasta com o protagonismo de 2015, quando o Brasil teve presença marcante na conferência do clima de Paris.

Agora, sob a batuta do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, esmolaram-se recursos em troca da desobstrução das negociações. Esta foi a inferência a que chegaram os especialistas do tema e participantes do evento.

Enquanto o Itamaraty permanecia numa posição solitária, representantes brasileiros do setor não conseguiram promover agendas oficiais com os países europeus. Essa atividade foi cumprida pelos governadores da Amazônia Legal, que mantiveram uma pauta intensa de reuniões.

O governo brasileiro acenava em sentido contrário ao interesse ambiental. A sua preocupação maior consistiu em criticar a adolescente Greta Thunberg, que replicou a censura recebida, ganhando destaque na imprensa internacional ao ponto de figurar na capa da revista “Time”.

A reduzida participação nacional no evento despertou a atenção de outras nações, a começar pela falta de um estande oficial, lacuna que foi suprida por representantes da sociedade civil – ONGs, empresas e universidades. Estes órgãos promoveram a criação de um estande independente, que foi palco de debates acalorados, contando com a presença do presidente do senado, David Alcolumbre (DEM-AP), embora este não detivesse a representação do Brasil no certame. Quanto a Ricardo Salles, limitou-se a breves encontros com ambientalistas e parlamentares.

A despeito dessa frustração, um fato relevante serviu para prestigiar o Brasil. O físico Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em um café da manhã com a imprensa estrangeira, foi acusado pelo presidente Jair Bolsonaro de haver transmitido informações inverídicas, estando “a serviço de alguma ONG”. O fato importou na sua demissão.

Agora, a revista “Nature”, uma das mais prestigiosas do mundo, escolheu Ricardo Galvão como uma das dez pessoas importantes para a ciência em 2019.

A denúncia feita por Bolsonaro, embora grave, não foi lastreada em qualquer prova. Decorridos três meses daquele incidente, o sistema Prodes, que mede a taxa oficial de desmatamento da Amazônia, confirmou a existência de um aumento de 30% entre agosto do ano passado e julho deste ano, desfazendo, assim, a pressurosa delação de Bolsonaro.

A honraria concedida a Ricardo Galvão é deferida somente a personalidades que detenham publicações científicas reconhecidas como importantes na área ambiental.

Galvão, ao ser informado de que iria receber aquela distinção, logo se manifestou: “Como brasileiro, me sinto triste pelo motivo da indicação ter sido o fato de o governo não ter cumprido suas obrigações com a preservação da Floresta Amazônica. Por outro lado, fico satisfeito, porque foi um momento difícil decidir o que fazer naquela ocasião, mas entendi que deveria demarcar uma posição firme. Não era apenas a questão do desmatamento, mas um ataque à ciência brasileira”.

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