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21 / dez 2018

A RAZÃO DO DESCONVITE

A celeuma criada pelo Itamaraty ao convidar Venezuela e Cuba para a posse do novo presidente, com o posterior desconvite, além de contrariar a postura histórica da Casa de Rio Branco, tornou-se um entrevero capaz de gerar consequências imprevisíveis.

A repercussão que o acontecimento teve na mídia concorre para a aceitação de que o revanchismo entre direita e esquerda, em nosso País, não findou com o resultado conhecido no segundo turno. Tudo faz crer que o segundo comunicado inspirou-se na concepção ortodoxa de Donald Trump, que tem no futuro chanceler, Ernesto Araújo, o seu maior seguidor.

A referência ao despotismo que impera na Venezuela, adotado como motivo para impedir o comparecimento de seu mandatário na solenidade de 1º de janeiro, tornou-se ociosa. Trata-se de comportamento somente aplaudido pelos governos filiados à crença bolivariana.

Na última reunião do Mercosul, realizada em Montevidéu, o presidente “pro tempore” daquele organismo, Mauricio Macri, concitou os governantes presentes a rejeitar o resultado “das eleições fraudulentas” promovidas por Nicolás Maduro, nestes termos: “não podemos deixar de nos preocupar com a crise humanitária a que estão sujeitos milhões de venezuelanos, muitos deles escapando do país, por conta da dura repressão do governo e da falta de condições de vida”.

Em sua fala, o presidente argentino defendeu que o bloco não se omitisse nem deixasse de “denunciar as fraudes eleitorais como as mais recentes e continuar trabalhando pela liberação dos presos políticos”.

Em represália, Maduro anunciou o crescimento da milícia civil, inaugurada por Hugo Chávez como auxiliar das Forças Armadas, que atingiu agora a 1,6 milhão de membros, mais do que o triplo existente em abril passado, cujos integrantes estarão armados “até os dentes” para proteger o país em caso de necessidade. Daí a sua proposta em “fazer um bom investimento para garantir seu acesso a fuzis, misseis e tanques”.

A bravata do ditador, transmitida na televisão estatal, teve como destinatários diretos os presidentes da Colômbia, Estados Unidos e Brasil, acusados de planejar a invasão da Venezuela, que importaria na queda ou na morte de seu títere, quando está prestes a iniciar um novo mandato (10/1/2019) que o manterá no poder até 2025.

Evidentemente, em face da distância ideológica que passará a existir entre o governo brasileiro e a Venezuela, já no próximo ano, o presidente Nicolás Maduro não compareceria, nem se faria representar na investidura de Bolsonaro, contando com a adesão de Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, mesmo se mantido o questionado convite.

Seria o caso de se indagar se a restrição feita a Maduro e Canel alcançaria, também, outras ditaduras, como da Coreia do Norte, China e Hungria, que não comungam dos ideais democráticos.

Convidar e desconvidar, conforme salientou um pedagogo acatado, é o mesmo que presentear uma criança e tomar-lhe de volta o que lhe fora dado, sem maiores explicações.

As turbulências já criadas em nossa política externa concorrerão somente para o desprestígio do Brasil, não podendo colocar em risco os interesses comerciais e nem as relações amistosas que sempre mantivemos com todos os países, inclusive durante o regime militar.

Este deverá ser o norte de toda nação consciente do que seja o pragmatismo econômico, aliado aos princípios universais da boa convivência.

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