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27 / jan 2020

A EXALTAÇÃO AO NAZISMO

Roberto Alvim, secretário especial de Cultura, após reproduzir pronunciamento de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, foi demitido ante a pressão dos presidentes do Senado e Câmara e da Comunidade Judaica Brasileira, esta representada pelo embaixador Yossi Shelley.

 A similitude do texto elaborado por Goebbels, em 1933, com o que foi divulgado por Alvim decorre da ênfase emprestada ao fato de que “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”.

Em seu pronunciamento, Roberto Alvim repetiu aqueles dizeres: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo, ou então não será nada”.

No Terceiro Reich, o tratamento dispensado aos adversários importava numa doença que ameaçava “contaminar”o ”corpo nacional”por meios insidiosos, tornando-se a cultura o principal veículo dessa infecção.

Regimes ditatoriais desabrocham atacando artistas, queimando livros, defendendo projetos populistas inspirados no sentimento de vingança. Ou então, mediante a corrupção da arte, com a promoção somente de artistas mais engajados com o governo, que se dispõem a assimilar as suas ideias.

Pelas elogiosas referências feitas ao seu secretário, poucas horas antes de destituí-lo, o presidente não levou em conta os disparates cometidos nos diversos setores que Alvim comandou. Comprou briga com o ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB) e do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL), recebendo aval de Bolsonaro para nomear quem quisesse, desde que afinado com a ideologia governamental.

Daí haver indicado para a Fundação Palmares um negro racista, gerando pronta reação da comunidade e do STF. Para a Biblioteca Nacional escolheu um inexpressivo monarquista, enquanto que a “Casa de Rui Barbosa” foi entregue a um apaniguado sem a menor ligação intelectual com o imortal baiano.

A exoneração de Alvim, como tem sido afirmado, não muda o fato de que ele nada mais fez do que acrescentar teatralidade a um discurso identificado com o pensamento do atual presidente. Tao logo assumiu a direção da Funarte, acionou uma máquina de guerra cultural estimulada pelo “gabinete do ódio”, que atua no assessoramento a Bolsonaro no Palácio do Planalto.

O empreendimento ficou a cargo de sua mulher, a artista Juliana Galdino, e, por infringir a Lei do Nepotismo, tornou-se alvo de investigação do Ministério Público Federal.

A queda de Alvim constitui o último ato de sua carreira de dramaturgo. a ofensa pública feita à artista Fernanda Montenegro, atacada como “sórdida” e “mesquinha”, culminou com o episódio que Bolsonaro considerou, a princípio, somente infeliz, vindo a reconhecê-lo como suficiente para a dispensa de seu fiel seguidor, em face da repercussão que teve no exterior.

A propósito, vale acrescentar que o ideólogo Olavo de Carvalho, patrocinador da indicação de Roberto Alvim, procurou eximi-lo das críticas feitas ao admitir que Alvim “não estivesse bem da cabeça”.

A influência do mesmo Olavo de Carvalho e de Steve Bannon ainda paira sobre o governo na área da propagada política, que deu sustentação transitória ao nazismo.

O fato de haver despedido Alvim não impedirá que Bolsonaro continue empolgando os seus acólitos, diariamente, à porta do Palácio da Alvorada, pois, o capitão reformado não transigirá em relação aos seus “princípios”. Estes compreendem pronunciamentos racistas e persecutórios aos diversos setores da sociedade em desacordo com a sua pregação, como a exaltação permanente do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que Bolsonaro passou a reverenciar desde o impeachment de Dilma Rousseff.

O programa a ser concretizado por Roberto Alvim importava no fomento da arte conservadora, a que foram destinados R$ 20 milhões em edital já publicado. Este valor compreendia cinco óperas, 25 espetáculos teatrais, 25 exposições individuais de esculturas e pintura, CDs musicais e proposta de histórias em quadrinho. Esta última, certamente, exaltando a figura do presidente…

O destempero do ex-secretário haverá de provocar incômodos de parte de outros países aos integrantes da delegação brasileira no Fórum Econômico de Davos, que é comandado pelo ministro Paulo Guedes.

Quanto à Goebbels, que obteve o grau de doutor em Filosofia na Universidade de Heidelberg, passou à história como autor do dístico de que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Lançar mão de um discurso de Goebbels em prol de um movimento cultural, que conta com financiamento público na construção de um projeto de unidade nacional e de submissão coletiva ao Estado, importa em indisfarçável idílio com o nazismo, expondo-se às consequências de uma tempestade política.

Goebbels teve seu fim no Vorbunker, após ter sido escolhido por Hittler como seu sucessor nas providências finais de entrega do poder ao exército russo, que se encontrava às portas de Berlim. O seu suicídio ao lado de Magda, após o envenenamento de seus seis filhos menores ministrando-lhes cianeto, revela a monstruosidade de seu caráter.

O episódio que sacudiu o Brasil na última semana merece ser repudiado por todos aqueles que não aderem à proposta de elaboração de uma “arte nacional” capaz de encarnar simbolicamente os anseios da maioria da população.

A “urgência” a que Bolsonaro foi levado em livrar-se, o quanto antes, de Roberto Alvim, não significa que o Brasil esteja livre de novos riscos, por mais sórdidos que sejam aqueles que ainda pretendam ler na cartilha de Joseph Goebbels, em que se inspirou o pressuroso Secretário de Cultura.

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