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01 / jun 2011

A ARTE DE TRANSIGIR

Ouvi, quando estudante, numa conferência na Faculdade de Direito, em Belo Horizonte, proferida pelo notável San Tiago Dantas, que a política “é a arte de assegurar o êxito do bem”.

Desde então, convenci-me que em política devemos, a um só tempo, ser persistentes e firmes no fundo, mas flexíveis e brandos na forma e no modo de fazer.

O político que por obstinação se recusa a examinar as razões do adversário deixa de ser político, tornando-se um fanático.

Esta é a impressão que recolhi, nos últimos dias, do eterno impasse existente entre Israel e Palestina.

Na semana passada, Obama defendeu a criação de um Estado palestino com base nas fronteiras de antes da Guerra dos Sete Dias, em 1967. A vingar esta solução, caberia a Israel ceder o controle de Jerusalém Oriental, retirando os assentamentos na Cisjordânia, ocupada naquele conflito.

Embora afirmando que Israel estaria preparado para fazer concessões gerais pela paz, o primeiro-ministro Netanyahu, mantém-se inflexível em relação à proposta do presidente americano, que defendia a criação de um estado palestino nas linhas de 1967.

Diante dessa posição irredutível, chega-se a conclusão de que Israel prefere divergir dos EUA, ao invés de submeter a proposta defendida por Obama à apreciação de seu gabinete conservador.

Em reforço a esses argumentos, Netanyahu acrescentou que recusa qualquer entendimento que importe em transigir com a Autoridade Palestina, devido ao apoio que esta recebe do Hamas como controlador da faixa de Gaza.

Segundo aquele premiê, o seu adversário, tal como o Irã, nega o direito de existência de Israel.

A situação tornou-se agora mais grave com a afirmativa feita por Barack Obama em Londres: “A única maneira de vermos um Estado palestino é se israelenses e palestinos concordarem com uma paz justa, tomando o caminho das Nações Unidas, em vez de sentarem e conversarem.”

Desde que Obama instalou-se na Casa Branca não houve sinais de melhoria nas relações entre Israel e EUA, sendo hoje visível a descrença recíproca entre seus mandatários.

Por sua vez, o líder da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, foi incisivo ao afirmar que se o diálogo que pretende manter com Israel não avançar, irá buscar o reconhecimento da Palestina na ONU.

Isto é, procederá como o próprio Israel que foi criado por uma resolução da ONU, em 1948, numa sessão histórica presidida pelo brasileiro Osvaldo Aranha.

Diante desse quadro de intransigências mútuas, torna-se evidente a indisposição dos contendores em encontrar uma saída honrosa.

Na política, realmente é indispensável que se tenha vocação e coragem para navegar na procela dos interesses conflitantes. Mas, no entanto, não há como realizá-la sem que haja disposição em renunciar a certas exigências atuais, em prol do “êxito do bem” de que falava San Tiago Dantas.

Ao que tudo indica, Netanyahu e Mahmoud Abbas ainda não se convenceram da vantagem em buscar esse resultado, mesmo renunciando às suas vaidades pessoais.

 

 

 

 

4 comentários

  • Que privilégio o sr. teve em ouvir San Tiago Dantas e que privilégio o nosso haurir conhecimento pelo seu blog!A definição dele de política, “é a arte de assegurar o êxito do bem”, é um sopro de esperança. Examinar as razões do outro e defender as nossas com suavidade é um aprendizado e vale para a vida também. Gostei demais!

  • Valéria, uma palavra sua que fosse seria um incentivo a mais para criticar o que me parece errado e aplaudir o que seja digno de louvores. Deus te pague. Aristoteles Atheniense.

  • Mestre Aristóteles : como lhe disse, a sua presença freqüente no Hoje em Dia, com os comentários sobre os assuntos da atualidade, sobretudo os relacionados com a política internacional, nos proporciona informações precisas e necessárias, para avaliarmos a realidade nacional e mundial. Sobral Pinto, San Tiago Dantas e tantos outros homens do Direito, que eram respeitados como defensores dos direitos humanos, sempre tiveram em Você um amigo e companheiro, com a mesma coragem em tomar posições contra o arbítrio e com a idoneidade própria dos grandes líderes.Apesar de suas ocupações, continue a nos brindar com os seus artigos. Precisamos de sua sabedoria! Reynaldo X. Carneiro

    • Estimado Reynaldo, as suas generosas palavras a meu respeito constituem um estímulo valioso no meu propósito de contribuir para a melhoria do País e daqueles que têm a missão de administrá-lo. Muito obrigado. Marcharemos juntos. Amigo e admirador, Aristoteles Atheniense.

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