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21 / fev 2020

A ARTE DE SABER ESCOLHER

A recente nomeação do general Walter Souza Braga Netto, natural de Belo Horizonte, para ministro da Casa Civil, ensejou diversas especulações quanto à finalidade da escolha.

Não se tratava, apenas, da substituição do deputado Onyx Lorenzoni, cuja atuação no Planalto descontentava o presidente. O parlamentar vinha se empenhando mais em articular sua candidatura a governador do Rio Grande do Sul do que exercer satisfatoriamente a tarefa de gerir, com eficiência, a pasta que lhe foi confiada.

O general Braga Netto exerceu discretamente a intervenção federal no Rio de Janeiro, fazendo valer a disciplina do Exército, evitando pronunciamentos e entrevistas estapafúrdias que pudessem comprometer a sua incumbência.

O convite recebido do presidente foi avaliado, por alguns observadores, como a sua disposição em evitar que a administração fosse contaminada por interesses mesquinhos, num ano em que as aspirações eleitorais desbordam do razoável.

Daí proclamar a conveniência de novos militares no governo, embora com a ressalva de que não há “nada contra os civis”, que vem desempenhando bem as suas atividades, citando como exemplo o ministro Sérgio Moro.

A troca de ministros e assessores, por indicação de seus turbulentos filhos, talvez não prossiga com a frequência atual, com rompantes imprevisíveis de efeitos inesperados.

A queda do civil Gustavo Bebianno e a destituição sumária do general Santos Cruz, tiveram como fatores decisivos a incompatibilidade dos exonerados com os laços familiares do presidente. Mesmo que, doravante, Bolsonaro venha imprimir ao seu desempenho um comportamento mais civilizado, é crível que as recentes substituições operadas sirvam, pelo menos, para debelar a sua afoiteza nos atos oficiais e públicos de que participa.

É incompreensível que o mais alto mandatário da nação continue a usar um linguajar chulo em suas entrevistas, praticando atos obscenos dirigidos aos jornalistas que ousam dirigir-lhe indagações que recebe como desacato.

O novo chefe da Casa Civil é um militar discreto, seguro em seus pronunciamentos, que mede as palavras proferidas, respeitando seus subordinados, dispensando aos políticos um tratamento sóbrio, não estimulando lorotas, o que lhe confere o respeito recíproco que deva existir entre militares e civis.

Se Bolsonaro e os generais que tem ao seu lado são egressos do mesmo ambiente onde a ordem é um primado, torna-se ininteligível que o ex-capitão continue a debochar dos adversários com ultrajes desprimorosos, enquanto que os seus companheiros de farda, de patente superior, dotados de experiência da caserna, que já atuaram no exterior, portem-se educadamente, servindo de exemplo ao presidente bravateiro.

Não menos oportuna foi a nomeação do almirante Flávio Augusto Viana Rocha para o comando da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), agora ligada diretamente ao gabinete presidencial. A preferência importou na desvinculação da Casa Civil dos seguidores de Olavo de Carvalho. Estes terão agora de prestar contas ao antigo comandante do 1º Distrito Naval, do Rio de Janeiro.

Tércio Arnaud Thomaz e José Matheus Sales Gomes, ligados a Carlos Bolsonaro, perderam os poderes que exerciam como responsáveis pelas redes sociais do presidente.

Desde 2019, os militares do terceiro andar do Planalto, onde fica o gabinete de Bolsonaro, o alertaram para as crises sucessivas decorrentes de questões ideológicas. Este poder, alimentado por seus filhos, inspirados nos ideais olavistas, tende a perder espaço e distanciamento do presidente.

O almirante Rocha, tal como o general Braga Netto, é um militar dotado de longa vivência na Armada, fala seis idiomas, já havendo atuado no Congresso como assessor. A sua indicação foi considerada uma busca de racionalidade em detrimento da ala ideológica de Olavo de Carvalho.

Não haverá mais condições do presidente renitir em seu discurso belicoso, promovendo descontentamento entre os parlamentares, já que passará a contar somente com os seus familiares e os poucos remanescentes da campanha política.

Com a desfiliação do PSL e a criação de um novo partido, em fase embrionária, é necessário que Bolsonaro imprima um novo rumo à sua gestão, sob pena do barco que comanda não atingir um porto seguro.

Um futuro rompimento com os militares levará o governo a uma crise impreterível. O critério que deva persistir nas futuras nomeações comporta a advertência que Maquiavel deixou na sua obra “O Príncipe”. No seu juízo, “para o príncipe não é de pouca importância saber escolher os seus ministros, os quais são bons ou não conforme a sabedoria de que ele usou na escolha”.

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